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quarta-feira, 21 de março de 2012

D i a _ d a _ P o e s i a

Primeiro, remodelei "a casa" como podem ver, isto já precisava...

e agora, um poema bem ao jeito do calorzinho que se faz sentir por aí ;)

AH! QUEREM uma luz melhor que
a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas
que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol
que o Sol,
O que quero é prados mais prados
que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores
que estas flores -
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

quinta-feira, 28 de abril de 2011

F a l t a _ d e _ T e m p o ?

Poema da minha esperança

Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais,
não se rala nem se apressa.

O meu sorriso de troça,
Amigos!,
quando vejo o meu relógio
com três quartos de hora a mais!...

Tic-tac... Tic-tac...
(Lá pensa ele
que é já o fim dos meus dias.)

Tic-tac...
(Como eu rio, cá p'ra dentro,
de esta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de hora de vida.) 


Sebastião da Gama

Porque quando eu era uma pessoa organizada, não tinha internet, via as horas por um relógio (não pelo telemóvel) e ele andava sempre adiantado propositadamente.
A sensação de ter mais tempo de vida, sabe mesmo bem ;)
Hoje faço isso no relógio do carro, lá ando eu sempre com mais dez minutos para chegar a qualquer lado LOL

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Gosto de justificar a procrastinação com as palavras sábias de um ilustre poeta (seja lá ele quem for)

Estava a trabalhar e até o trabalho me diz para o largar!!

"Vem ao baile vem ao baile
Pelo braço ou pelo nariz
Vem ao baile vem ao baile
E vais ver como te ris

Deixa a tristeza roer
As unhas do desespero
Deixa a verdade e o erro
Deixa tudo vem beber

Vem ao baile das palavras
Que se beijam desenlaçam
Palavras que ficam passam
Como a chuva nas vidraças
..........................................." O Alexandre O'Neil sabia o que dizia

O poema surge como justificação ao seguinte excerto:
"O convite mais eufórico de O’Neill à comunhão global do ser humano com a
linguagem da poesia, simultaneamente linguagem do corpo e do espírito, está contido
na série de seis quadras que compõem o poema “Um Carnaval”. Através da subversão
carnavalesca, demoníaca, da vulgaridade do quotidiano, a palavra é festa em movimento
vertiginoso, lugar de reformulação e esconjuro das estruturas desgastadas do real, ao
mesmo tempo que, por inerência, se volve em fonte de saúde mental e biológica para
aqueles que a manuseiam:"
 
In.http://www.casadaleitura.org/portalbeta/bo/documentos/ot_oneill_nogueira_a.pdf

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Procura a maravilha.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

Eugénio de Andrade

sábado, 24 de janeiro de 2009

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estrita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.


Carlos Drummond de Andrade, in 'O Amor Natural'
lindo!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

U m M i a u D o c e

Miau, tenho os pés frios...




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O amor é uma companhia.

Já não sei andar só pelos caminhos, Porque já não posso andar só.

Um pensamento visível faz-me andar mais depressa

E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma cousa que está comigo.

Eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.


Se não a vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.

Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.


Todo eu sou qualquer força que me abandona.

Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.


Fernando Pessoa in Ficções do Interlúdio/1 - Poemas Completos de Alberto Caeiro

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

I L H A

Deitada és uma ilha E raramente

surgem ilhas no mar tão alongadas

com tão prometedoras enseadas

um só bosque no meio florescente



promontórios a pique e de repente

na luz de duas gémeas madrugadas

o fulgor das colinas acordadas

o pasmo da planície adolescente



Deitada és uma ilha Que percorro

descobrindo-lhe as zonas mais sombrias

Mas nem sabes se grito por socorro


ou se te mostro só que me inebrias

Amiga amor amante amada eu morro

da vida que me dás todos os dias



David Mourão-Ferreira